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    Rondônia, quinta, 15 de janeiro de 2026.

Nacional

Lockdown será necessário para conter explosão de casos no país, dizem cientistas

Especialistas afirmam que o lockdown é uma medida necessária para evitar uma explosão ainda maior de casos em capitais e regiões metropolitanas. Neste sábado (9), o Brasil chegou a 10 mil mortes oficiais pelo novo coronavírus.

“Vários Estados estão com a demanda dos serviços de saúde no limite e tudo indica que teremos um forte aumento de casos e de óbitos nas próximas semanas. Este cenário indica a necessidade de que as autoridades indiquem o lockdown, medida que deve ser associada a ações de apoio a populações socialmente vulneráveis”, defende epidemiologista Eliseu Alves Waldman, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Luciana Costa, diretora-adjunta do Instituto de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vai além sobre a possibilidade de eficácia do lockdown.

“O lockdown é a única solução neste momento que pode ter alguma eficácia para controlar a curva epidêmica que está indo para o descontrole. As medidas de isolamento social não tiveram adesão da população como deveriam. Isso foi consequência de informações truncadas e mensagens opostas enviadas por prefeitos e governadores e o presidente da República”, diz Luciana.

“A gente vê que a epidemia pode se expandir muito rapidamente diante de mais aglomerações e atividades no local. Se não for feito nada que interrompa as novas transmissões, o Brasil pode se tornar o novo epicentro da pandemia, juntamente com os Estados Unidos”, diz a especialista do Laboratório de Genética e Imunologia das Infecções Virais.

A medida de quarentena compulsória, em que ficar em casa é uma obrigação e não uma recomendação, já foi adotada pelo governo do Pará na capital, Belém, e em outras grandes cidades do Estado desde terça-feira, dia 5.

Na região Nordeste, Maranhão e Ceará decretaram medidas similares.

Em São Paulo, estado onde houve a primeira morte de Covid-19 no país, no dia 17 de março, as medidas de distanciamento social e o fechamento de comércios não essenciais foram prorrogadas.

No Estado de São Paulo, a quarentena vai até o dia 31 de maio. E a Prefeitura anunciou um rodízio de veículos mais restritivo, que vale a partir de segunda-feira, e quer tirar 50% dos carros das ruas.

O Estado de São Paulo registrou na sexta, pela segunda vez, a taxa mais baixa de isolamento social, 46%. A meta é 60% e o ideal para evitar o colapso do sistema de saúde é 70%.

Na Grande São Paulo, a taxa de ocupação em leitos de UTI é de 90%. No Estado, é de 70%

Outros países e o Brasil

O momento atual se tornou “preocupante” na opinião dos pesquisadores porque o Brasil não fez a lição de casa.

O virologista Flávio Guimarães da Fonseca, que atua no Centro de Tecnologia de Vacinas (CT Vacinas), afirma que o Brasil desperdiçou a oportunidade de observar a evolução da pandemia em outros países, como Itália, Espanha e Reino Unido, que começaram a sofrer antes os efeitos da pandemia.

“A realidade de outros países, inclusive ocidentais, poderia ser utilizada como modelo para preparar a população. Isso não foi feito de uma forma uniforme em todo o Brasil”, diz o pesquisador do Departamento de Microbiologia da UFMG.

No início do mês de março, a Itália, por exemplo, era o país mais afetado da Europa pela Covid-19. Lá, a primeira morte foi confirmada no dia 21 de fevereiro.

Quase cinco semanas depois, o país já ultrapassava as 10 mil vítimas. O país demorou para responder à emergência e registra mais de 30 mil mortes.

Rafaela Rosa-Ribeiro, doutora em biologia celular e estrutural e que trabalha atualmente com grupo de virologistas no Ospedale San Raffaele em Milão, afirma que está assistindo ao mesmo filme pela segunda vez. O primeiro foi em solo italiano; o segundo, no Brasil.

“Parece um filme que está se repetindo com um roteiro diferente. A Itália subestimou a doença de certa forma, não por maldade, mas por ignorância. Fomos o primeiro país atingido fora da China. Depois, o país chegou a ser elogiado por conta das medidas rápidas. No dia 11 de março já estava tudo fechado, com exceção de farmácias e supermercados. Foram dois meses de lockdown”, diz a cientista brasileira.

“Tenho família no Brasil e estou preocupada. As pessoas não estão conseguindo entender a gravidade da doença. Na Itália, os cientistas foram ouvidos”, diz Rafaela.

“Entendo que o Brasil é um país muito diferente dos países europeus. É mais complicado tomar medidas drásticas por causa da quantidade de pessoas, condições sanitárias e econômicas. Mas muita gente que pode ficar em casa e empresas que poderiam deixar funcionários em home office não estão pensando na doença”, enumera ela.

Baixa testagem

O infectologista Antonio Bandeira, diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e professor da Faculdade de Tecnologia e Ciências Uniftc, lembra que o Brasil também não se preparou em relação à realização de testes.

O especialista afirma que o Brasil fez 340 mil testes enquanto o número nos Estados Unidos é de dois milhões. Dos oito países com maior quantidade de casos, o Brasil é o que menos testa.

De acordo com o número de testes por mil habitantes, apresentados nesta sexta-feira (8) pelo Observatório Covid-BR, os Estados Unidos registram a média de 24,4, a Espanha, 28,9, a Itália, 38,3, a Alemanha, 32,8. O índice no Brasil é de apenas 1,4.

“Os testes moleculares (PCR) precisam expandidos. Isso é fundamental. O teste permite captar o número de pacientes, ajudar no planejamento de saúde e reduzir a subnotificação. Com o teste, é possível definir o isolamento domiciliar para que a pessoa infectada não contamine outros pacientes” explica. 

Por conta da falta de testes, Jean Pierre Schatzmann Peron, pesquisador líder da Plataforma Pasteur/ USP, que desenvolve estudos com foco em anticorpos e imunopatogênese, calcula que o número de contaminados seja de três a cinco vezes maior no país. “A gente não consegue testar todo mundo”, resume.

Prevenção

Alexandre Cunha, infectologista do Grupo Sabin e vice-presidente da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, afirma que a principal preocupação tem de ser com a velocidade de propagação da doença e não necessariamente com os números absolutos.

“Nos países onde se conseguiu manejar a epidemia sem sobrecarga do sistema de saúde, a mortalidade foi aquela esperada. Nos países com situação hospitalar razoável, mas onde o sistema de saúde entrou em colapso, a mortalidade foi várias vezes maior do que em países onde o sistema suportou”, argumenta Cunha. 

“Nossa grande preocupação é a velocidade com que esses casos e a capacidade de absorção do sistema de saúde. No Brasil, a situação tem de ser analisada em cada município. O que é bom para uma região pode não ser boa para outra. Cada município vai atingir o pico em momentos diferentes”, diferencia.

Como o coronavírus se espalha facilmente entre as pessoas, a infectologia Sylvia Lemos, consultora em Biossegurança e Controle de Infecções e também membro da SBI, afirma que os cuidados individuais com higienização das mãos e o uso de máscaras são fundamentais para conter a pandemia.

“Os hábitos que estamos adotando agora serão levados para toda a vida. É fundamental lavar as mãos, com água e sabão, fazer a higienização quando voltar da rua com álcool gel. O ideal é ficar em casa. Se não for possível, é muito importante usar máscaras, manter a distância de um metro, no mínimo, e evitar aglomerações”, explica. 

Fonte: O tempo

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