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    Rondônia, segunda, 11 de maio de 2026.

Nacional

Um ano da morte de Bruno e Dom: Brasil presta homenagem nesta segunda-feira

O jornalista britânico Dom Phillips e o indigenista brasileiro Bruno Pereira serão homenageados nesta segunda-feira (5) em todo o país, no primeiro aniversário de seus assassinatos na Amazônia enquanto investigavam crimes ambientais na maior floresta tropical do mundo. 

Em um ato na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, o protesto foi marcado por críticas de que, um ano depois das mortes, não foram tomadas medidas de proteção às terras indígenas. “Ainda estão batendo cabeça. Não tomaram providências efetivas de fato. O Estado brasileiro deve uma explicação ao mundo, porque o mundo se comoveu com esses assassinatos”, disse Beto Marubo, líder da Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), organização na qual Bruno também atuou.

O grupo também citou retrocessos recentes, como a aprovação do projeto de lei do marco temporal na Câmara dos Deputados e o enfraquecimento do Ministério dos Povos Indígenas, que com a aprovação da MP da Esplanada perdeu a competência pela demarcação de terras.

Marubo defendeu que o Senado rejeite o projeto de lei do marco temporal e relembrou as sugestões apresentadas pela Univaja durante a transição de governo. “É preciso ter a presença do Estado, Funai, Exército, Ibama e Força Nacional [no local]. As estruturas da Funai são precárias na região. A Funai está em frangalhos, com organograma desatualizado, e o Congresso esfacelou a atuação do Ministério dos Povos Indígenas. Isso vai acarretar mais retrocessos”, disse Marubo.

No ato, Alessandra Sampaio, viúva de Dom Philips, afirmou que os grupos investigados e denunciados pelo jornalista seguem em atividade na região, mesmo após investigações da Polícia Federal. 

“O Brasil continua consumindo ouro da terra yanomami. Continua consumindo carne que veio do desmatamento da Amazônia. Lá, continuam trabalhando com madeira ilegal, tráfico de animais silvestres, além da questão do narcotráfico, que perdeu o controle totalmente. É uma luta injusta, porque eles estão bem armados. Foi uma falta de fiscalização intencional do último governo durante quatro anos”, disse Alessandra, em crítica às políticas do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

“Não queria estar aqui falando isso. É uma posição incômoda, porque eu perdi o amor da minha vida”, acrescentou Alessandra, que anunciou na semana passada a criação de uma ONG em homenagem a Dom Philips.

Outras homenagens 

Um ano depois, o caso se tornou um símbolo da combinação de violência, ganância e pobreza que alimenta a destruição da floresta amazônica e dos perigos enfrentados por jornalistas, especialistas, comunidades indígenas e outros que tentam chamar a atenção para a situação da região.

Diversas homenagens para relembrar Bruno e Dom serão organizadas em outras cidades, como Brasília e Londres. Também há homenagens previstas em Atalaia do Norte, cidade fronteiriça de onde partiram para a última viagem. 

Em sua viagem, Pereira planejava mostrar a Phillips seu trabalho organizando patrulhas nativas na reserva, lar do maior número de povos indígenas isolados da Terra. Um documentário que narra a vida e obra de Phillips e Pereira estreou na sexta-feira na plataforma de streaming Globoplay.

“Não vamos desistir dessa luta pelo planeta, nem esquecer Dom Phillips e Bruno Pereira”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em comunicado enviado ao jornal The Guardian, para o qual Phillips trabalhava. 

“Estamos, em nome de um Brasil soberano, do planeta e também do legado e memória de Dom e Bruno, lutando para retomar as políticas de proteção dos povos indígenas e da Floresta Amazônica”, acrescentou Lula, após assumir o cargo em janeiro com a promessa de combater a destruição ambiental agravada no governo de seu antecessor de extrema direita, Jair Bolsonaro (2019-2022).

“Heróis da floresta” 

Phillips, de 57 anos, um respeitado correspondente que também trabalhou para os renomados The New York Times, Washington Post e Financial Times, trabalhava em um livro com o título “Como Salvar a Amazônia”. 

Pereira, de 41 anos, funcionário de alto escalão da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), estava de licença depois de entrar em conflito com o então diretor da agência, Marcelo Xavier, um chefe de polícia nomeado por Bolsonaro. 

Ele trabalhava como consultor e ajudava grupos indígenas a proteger suas terras de crimes ambientais, o que rendeu ameaças de morte. Ambos eram altamente respeitados por seu trabalho e seu desaparecimento gerou uma série de condenações internacionais, da banda de rock U2 ao astro de Hollywood Mark Ruffalo, passando pelo rei do futebol Pelé. 

A viúva de Phillips, Alessandra Sampaio, de 52 anos, diz ter se emocionado com a repercussão do caso: “O que faz mais sentido para mim nessa tragédia é o entendimento que é uma coisa muito maior… Teve tanta repercussão”, disse ela à AFP. 

“Eu até recebi feedback de crianças, muitas crianças, que consideram Dom e Bruno heróis da floresta… Tem mais pessoas que estão sensibilizadas para a questão da Amazônia, que entendem a gravidade do que está acontecendo, tem mais pressão tanto dos brasileiros quanto internacionalmente”, acrescentou.

Luta incessante 

Parentes de Phillips lançaram uma campanha para arrecadar dinheiro para os colegas terminarem seu livro, enquanto a organização Forbidden Stories patrocina projetos de reportagens que dão continuidade ao trabalho dos dois. Três pescadores estão sendo julgados pelos assassinatos. 

O suposto mandante, Rubens Villar Coelho (“Colômbia”), suposto traficante acusado de praticar o comércio ilegal de pesca, foi preso em julho do ano passado e depois foi colocado em prisão domiciliar. 

Xavier foi indiciado pela Polícia Federal de contribuir indiretamente para os assassinatos ao não proteger os funcionários que trabalham na Amazônia.

A luta para proteger a Amazônia, um recurso fundamental na corrida para conter as mudanças climáticas, ganhou novo impulso no Brasil quando Lula derrotou Bolsonaro nas eleições de 2022. 

Mas a ameaça ficou clara na semana passada, quando o Congresso aprovou projetos de lei que reduzem consideravelmente os poderes dos ministérios do Meio Ambiente e Mudança do Clima e dos Povos Indígenas de Lula e restringem drasticamente a proteção das terras indígenas. 

Enquanto isso, ameaças de morte e violência continuam comuns no Vale do Javari, disseram ativistas indígenas na estreia do documentário na quinta-feira. “Não mudou absolutamente nada”, disse o líder indígena Beto Marubo. (YURI EIRAS/Folhapress e AFP) 

Fonte: O tempo

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