“Não tem jogo, não tem game falando de amor. É game ensinando a molecada a matar”. A afirmação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante uma reunião nessa terça-feira (18) provocou uma onda de debates sobre a relação entre o consumo de jogos eletrônicos com os ataques violentos. O mandatário sugeriu que os videogames teriam influência negativa no comportamento de jovens e adolescentes ao estimular atos de violência.
A fala repercutiu nacionalmente, fazendo com que personalidades, como o youtuber Felipe Neto, rebatessem a opinião do presidente. “Lula está errado. Essa análise é rasa, ultrapassada e não reflete a realidade. Mais um erro grotesco na comunicação do presidente”, escreveu o influencer no Twitter.
Lula está errado. Essa análise é rasa, ultrapassada e não reflete a realidade.
Mais um erro grotesco na comunicação do Presidente.https://t.co/2Oz7APuvVh
— Felipe Neto 🦉 (@felipeneto)
April 18, 2023
Quem compartilha do mesmo posicionamento de Felipe, é o psicólogo Amarilio Campos. O profissional trabalha há 20 anos com atendimento a adolescentes, e também é especialista em jogos digitais. Para ele, o fato de se discordar da visão de Lula “não se trata de bater de frente com o governo, mas de se contrapor a uma ideia, que é completamente sem fundamento.”
“Quando falamos de jogos eletrônicos, e atribuímos a eles a responsabilidade por massacres ou outras atividades violentas, esquecemos que os videogames são relativamente recentes, e que a influência deles ainda representa muito pouco. Precisamos entender que, quando a gente coloca os jogos como responsáveis, a gente tira das costas do governo a responsabilidade de resolver questões básicas, como de educação e segurança,” enfatiza Amarílio.
Segundo o especialista, há outros fatores que devem ser levados em consideração ao avaliar o cenário de violência. “Estamos o tempo inteiro sendo bombardeados por informações vindas de todos lugares, sobretudo das redes sociais. O Tik Tok e o Twitter, por exemplo, são consideradas por pesquisadores como plataformas tóxicas e perigosas.”
Campos destaca ainda a importância de se fundamentar em evidências científicas antes de tomar uma decisão de política pública. “Não é possível que vivamos em um país em que a gente precisa se basear em preconceito para criar política pública. Política pública não se cria com preconceito, mas sim com evidências científicas. Até porque preconceito a gente já tem demais,” finaliza.
Livros que contestam a ideia do presidente
Confira abaixo uma lista com obras literárias, elaborada pelo psicólogo Amarilio Campos, que se opõem à ideia de que os videogames estimulam a violência:
- “Reality is Broken: Why Games Make Us Better and How They Can Change the World”, de Jane McGonigal. Neste livro, a autora argumenta que os jogos podem ser usados para melhorar a sociedade e a vida das pessoas, ao invés de causar violência.
- “Don’t Shoot: One Man, a Street Fellowship, and the End of Violence in Inner-City America”, de David M. Kennedy. Esta obra explora a ideia de que a violência é um problema complexo e que não pode ser resolvido simplesmente reprimindo os jogos violentos ou outras formas de entretenimento.
- “The Art of Failure: An Essay on the Pain of Playing Video Games”, de Jesper Juul. Neste livro, o autor argumenta que a frustração e o fracasso são parte integrante da experiência dos jogos e que eles podem ser usados para ensinar habilidades importantes, como persistência e resiliência.
- “The Video Game Debate: Unravelling the Physical, Social, and Psychological Effects of Video Games”, editado por Rachel Kowert e Thorsten Quandt. Esta obra apresenta uma ampla gama de pontos de vista sobre os efeitos dos jogos na sociedade, incluindo a questão da violência.
Onda de ataques
Um levantamento do Instituto Sou da Paz mostrou que, nos últimos 20 anos, foram 12 ataques a escolas com uso de armas de fogo, que deixaram 34 mortos e 59 feridos. No caso mais grave recente, em que um homem invadiu uma creche em Blumenau (SC) e matou quatro crianças com golpe de machadinhas, há a teoria de que o autor seria adepto a jogos eletrônicos. Em razão disso, o deputado federal Zé Trovão (PL-SC) solicitou ao Ministério da Justiça que encerrasse a venda e partida de games violentos.
Fonte: O tempo









































