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    Rondônia, sexta, 01 de maio de 2026.

Nacional

Carga emocional do fim de ano faz crescer procura por consultas psiquiátricas

Seu filho corre pela cozinha querendo ajudar a preparar aquela famosa receita, e você rapidamente coloca os cabos das panelas para o lado de dentro e adverte que o forno está quente. Após o susto, você seca o suor no rosto e reclama do calor. Recorda, então, que vai aproveitar as altas temperaturas em breve, quando estiver na praia. Eis o começo de uma história que poderia acabar no pronto-socorro.

A combinação de férias escolares, festas de fim de ano e mudanças climáticas altera os atendimentos nas unidades de saúde nos meses de dezembro e janeiro. Há mais ocorrências de afogamento, queimaduras, quadros gastrointestinais e traumas. Também cresce a procura relacionada a doenças psiquiátricas.

“É um período cheio de simbolismo, a carga emocional é grande e vemos um aumento no pronto-socorro de pacientes que procuram devido a quadros emocionais. Muitas vezes, eles vêm só para falar, desabafar. São pessoas de meia-idade ou mais idosas com quadros depressivos por não terem, por exemplo, sido visitadas pelos parentes ao longo do ano”, conta Claudio Isaac, coordenador do pronto-socorro adulto do Hospital Leforte Liberdade, em São Paulo.

Os casos de depressão também tornam-se mais frequentes nesta época nos prontos-socorros da rede Mater Dei, em Minas Gerais, e exigem das equipes um olhar diferente. “As pessoas têm um excesso, como abuso de álcool, e acham que é por causa das festas, mas uma investigação mais a fundo pode revelar que o episódio está relacionado a um transtorno psicológico”, afirma o diretor-médico da rede, Felipe Salvador Ligório.

O problema é que, no pronto-socorro, o contato é muito mais rápido e superficial do que em consultas e é difícil investigar as causas das queixas emocionais. “O paciente vem à procura de um acolhimento que muitas vezes não conseguimos dar por causa da dinâmica do pronto-socorro”, diz Isaac.

O mesmo pode ocorrer em situações como crise de pânico. A pessoa chega ao local com dor no peito e falta de ar, e os médicos verificam a possibilidade de infarto. Excluída essa hipótese, não há estrutura para apurar o que provocou o incômodo.

Nesses casos, há dois caminhos possíveis: internar para aprofundar a investigação, fazendo interconsulta com outras especialidades para fechar o diagnóstico, ou encaminhar para investigação ambulatorial com o psiquiatra.

Os médicos têm observado ainda aumento nos casos respiratórios com suspeita de Covid-19 e, em Minas Gerais, mais pacientes com dengue. “Atendemos regiões onde a dengue prevalece. Com o período chuvoso, de dezembro a fevereiro percebemos aumento na procura”, diz Ligório.

No Hospital Cristo Redentor, em Porto Alegre, é uma época em que cresce o número de atendimentos relacionados a afogamentos, segundo Francisco Zancan Paz, diretor-técnico do Grupo Hospitalar Conceição.

O mesmo ocorre em Minas Gerais, repercutindo o observado pela Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático no país. De acordo com a entidade, 45% dos afogamentos ocorrem de dezembro a março. Apenas em 2020, 5.818 brasileiros morreram afogados, com 70% dos casos em rios e represas.

O período de férias e de festas caracteriza-se igualmente por mais acidentes com queimaduras, seja por fogos de artifício ou por acidentes domésticos. “É um período em que crianças ficam mais tempo dentro de casa e é importante observar a segurança do ambiente, como evitar deixá-las perto do fogão e colocar os cabos da panela para dentro”, orienta Ligório.

Caso ocorra algum tipo de queimadura, a recomendação é lavar a ferida com água corrente e não passar nenhum outro tipo de material sem consultar a equipe médica. “No pronto-socorro, o tratamento será direcionado de acordo com o tipo de queimadura”, afirma ele.

Os médicos destacam ainda a maior ocorrência de casos de diarreia, associados tanto à circulação do rotavírus nesta época do ano quanto aos exageros nas festas. “Os alimentos que preparamos nesta época são do inverno de países frios. São sementes, frutas secas e comidas gordurosas que não ingerimos ao longo do ano e neste período comemos muito. Isso facilita uma gastroenterocolite”, observa Isaac.

Além disso, muitas pessoas mudam sua rotina alimentar durante as viagens, e a exposição a novos tipos de gastronomia e a alimentos preparados sem cuidados com a higiene pode levar a intoxicações e quadros infecciosos. Para evitar o problema, os especialistas recomendam verificar como os produtos são manuseados e, no caso de pessoas com intolerância alimentar, sempre checar a lista de ingredientes.

Outro aspecto fundamental é manter o corpo constantemente hidratado. Ficar horas sem fazer xixi, sentir a boca seca, a pele e os olhos ressecados e um maior cansaço são sinais de que já passou da hora de beber água.

Cuidado com exageros

Por fim, os médicos lembram que exageros no “projeto verão”, em que as pessoas intensificam as dietas e os exercícios físicos para ficar em forma, também costumam acabar no pronto-socorro.

“A pessoa não está acostumada a ter um período intenso de atividade e acaba provocando uma lesão. Também recebemos casos de traumas maiores, por acidentes em cachoeiras e passeios de bicicleta com pessoas desacostumadas a fazer trilhas. Há uma imprudência por não observar e não respeitar o limite esportivo ou radical”, aponta Ligório.

(Folhapress)

Fonte: O tempo

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