No primeiro trimestre de 2023, os números da Grendene (GRND3), fabricante das sandálias Ipanema, Azaleia e Melissa, o mote foi resiliência. Não teve muito vento a favor (ao menos não tão diretos). A dinâmica econômica continuou a mesma do quarto trimestre: inadimplência alta, desemprego elevado, juros em dois dígitos. Ainda assim, houve avanços. Mas a previsão é de que o Dia das Mães seja insuficiente para trazer fôlego ao consumo.
“O segundo trimestre não mudou muita coisa. Exportação, por exemplo, deve permanecer fraca. Já para o mercado interno, a gente está esperando um desmpenho muito semelhante ao Dia das Mães do ano passado, não deve ter melhora significativa”, diz o diretor de relações com investidores, Alceu Albuquerque, em entrevista à EXAME Invest.
O lucro líquido contábil caiu 1,9%, para R$ 123,1 milhões. Já o lucro recorrente, que excluiu a equivalência patrimonial da GGB e provisionamentos com perdas de três varejistas em apuros financeiros, foi de R$ 156 milhões, 18,1% maior do que um ano antes.
Entre janeiro e março de 2023, a Grendene registrou receita bruta de R$ 657,6 milhões, crescimento de 4,2% ante o primeiro trimestre do ano anterior, e uma receita líquida estável, a R$ 520,1 milhões. Já a receita bruta por par ficou em R$ 22,52, avanço de 2,1% em comparação com o mesmo período, puxada por reajustes feitos no começo do ano.
“O setor de varejo sofreu bastante e isso deteriorou ainda mais esse cenário para o consumo”, explica o diretor. “Mas conseguimos um bom desempenho: crescemos em volme, receita e margem bruta. Todos indicadores que refletem operação tiveram desempenho positivo e tudo isso pelo avanço do mercado interno”.
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Menos exportações e Argentina pesando
De fato, o mercado interno foi o que sustentou o negócio. As vendas no Brasil cresceram 15,2%, para R$ 495,1 milhões, com avanço de 10,7% em volumes, para 21 milhões de pares. No mercado externo, os volumes caíram 15%, para 8,2 milhões de pares, e a receita caiu 18,5% em dólares e 19% em reais, para R$ 162,5 milhões.
Setor de calçados como um todo recuou, explica Albuquerque sobre as exportações. Segundo ele, a desaceleração da economia mundial, fruto de elevada inflação global, e a China voltando a ser protagonista industrial reduziram a exportação brasileira. “Os preços dos fretes da Ásia estão recuando e deixando o produto chinês mais competitivo. Enquanto isso, os Estados Unidos estão em ritmo mais lento e a América Latina com pressão. Na Argentina sofremos bastante. Hoje ninguém quer emitir carta de crédito para os importadores argentinos. O negócio da Argentina está longe de conseguir equacionar”, diz.
Boas notícias: ganho de mercado e custo de produção menor
Embora a conjuntura seja ruim, alguns fatores foram positivos para a Grendene. Sem dívida, a empresa é uma das poucas que tem se beneficiado dos juros altos: a receita financeira somou R$ 101,9 milhões, quase 15% mais que um ano antes por causa de rendimento em aplicações financeiras.
No operacional também houve ganhos. Um deles foi o começo do efeito de redução dos preços de matéria-prima, que começaram a cair há alguns meses e agora começam a se refletir no custo de produção da Grendene. “Mesmo com a redução de 6,1% do CPV que permitiu o incremento da margem bruta em 4 pontos percentuais, ainda vemos oportunidades para melhorias, principalmente no componente matéria-prima, dado que o custo médio de estoque da resina da PVC, que é o principal insumo da companhia, se mantém acima do seu custo médio de reposição”, explica. Conforme vai consumindo seus estoques antigos e mais caros, a Grendene reduz seu CPV. Ao fim do primeiro trimestre a margem bruta da companhia era de 41,9%.
A empresa também viu sua participação de mercado ficar maior, segundo Albuquerque, especialmente no canal de autosserviço (supermercados), que não é o principal em vendas para a Grendene. “No canal de autosserviço crescemos 0,8 pontos percentuais. É o terceiro ou quarto trimestre seguido que temos ganhado share nesse canal”, diz ele, explicando que esse não é o mais representativo para a Grendene e, sim, as sapatarias. “Nossa estratégia é de conceder os menores reajustes possíveis para impactar menos a demanda. Estamos colhendo frutos da nossa estratégia.” No primeiro trimestre, a Alpargatas, dona da Havaianas e concorrente direta da Grendene e sua marca Ipanema, reportou queda de 2,7% na receita líquida e redução de 8% no volume vendido.
Fonte: Exame










































